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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O ANDARILHO





Sento-me à sombra de um velho carvalho. O sol fustigante já assolava minha mente, quando resolvi parar e dar um merecido descanso a este corpo quase esgotado. Gotas de suor beijam-me a testa e ainda escorrem seguidamente por minha face.
Sou um andarilho da vida, um rebelde do trivial, um amante do mundo e cúmplice da natureza. Por que não? A apóio, estou sempre a seu lado e, submeto-me às suas exigências, quaisquer que sejam. Afinal, sou um homem que ama e vive intensamente a liberdade e tripudia regras. Devo ser minoria. Não sei!
Após minutos, pego meu surrado cantil e, com sofreguidão, sorvo um bom e demorado gole d’água, por sinal, coletada de uma nascente que achara no início dessa minha caminhada sem destino.
Agora, mais reconfortado, passo a monitorar e observar detalhadamente o local e arredores. Vejo logo abaixo, uma corredeira que desliza e serpenteia suas águas cristalinas com destreza e rara maestria, por entre pequenas pedras pontiagudas que parecem protegê-la.
Junto à sua margem, flores do campo multicoloridas aconchegadas comodamente sob uma grama verdejante e alguns pequenos arbustos, são embalados por uma brisa tênue e suave. De tão terno, sensíveis e harmoniosos são esses movimentos que, eles parecem tocados por um sopro divino. Esse açoite do vento, em forma de assobios, quase imperceptível aos nossos ouvidos, parece, bem sutilmente, querer dar início a alguma sinfonia.
Ao longe, uma cotovia, com seus cânticos, ensaia a sua dança de acasalamento. Numa pedra próxima ao riacho, um sabiá, como primeiro músico, entoa as suas primeiras notas da orquestra. Em seguida, os demais habitantes dali o acompanham, dando vida, beleza e, musicalidade àquela magnífica e estonteante paisagem. Todo um conjunto aflora inebriante e soberbo aos meus olhos.
Embora quente, onde um sol arrebatador e cruel descarrega seus raios impiedosos sobre a terra e todos, o céu mantém orgulhosamente aquela sua tonalidade azul inusitada e indescritível. As montanhas ao longe, eretas, orgulhosas, belas e desafiadoras, parecem posar para algum mestre da pintura detalhar sua imponência e desvendar seus segredos.
Vejo agora animais silvestres, insetos, pássaros coloridos, pequenos formigueiros e cupinzeiros, todos unidos, completarem aquele lindo cenário.
Já refeito da fadiga, mas um pouco triste por ter que me afastar dali, levanto-me para dar prosseguimento a essa minha jornada cigana à procura de novas emoções e belezas. Senti-me fascinado diante dessa paisagem que ora deixo, pois ela deu luz à minha mente, fazendo-me olhar com a alma e sentir com o coração.
Vi e vejo o que muitos teimam em não ver. Certamente está aí a diferença entre o homem comum e o poeta que, um apaixonado pela beleza, pela vida, com suas linhas e versos, mostra ao mundo o seu momento maior transformado em poesia.


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